quinta-feira, 9 de setembro de 2021

As escravidões e o espírito olímpico

Nunca foi fácil ser brasileiro ou latino-americano. É muita pobreza concentrada nessa região do planeta, historicamente saqueada pelo imperialismo estrangeiro. 

Gosto de pensar, no entanto, que algo melhor - na verdade, muito melhor - nos espera, porque já somos uma espécie de reserva espiritual para a humanidade, um espelho a que outras etnias poderão se mirar, por estarmos construindo, ao longo de todo esse processo que já dura mais de 500 anos, uma civilização imensamente baseada na dor.

Tamanha esperança amorosamente me ocorre na medida em que visito por meio de leituras e devaneios a profundidade de significados envolvidos na realização de mais uma edição dos jogos olímpicos.

Há poucas coisas mais ritualísticas, na vida das nações contemporâneas, do que a Copa do Mundo e, evidentemente, as Olimpíadas. Ritualizar, sob certo sentido, é abrir horizontes. Onde tudo parece ser dificílimo, sem solução aparente, a revelação trazida das zonas inconscientes da alma coletiva, pelo ritual, acolhe, acalma, dá carinho.

É quando ritualizamos que vemos novamente com clareza o que somos: humanos, amorosos, repetidamente andando em busca da paz.

A lembrança desse sentido  profundo de humanidade vence qualquer agrura, qualquer guerra, qualquer percalço. Sem isso, situações espinhosas, como atualmente a pandemia e o avanço neofascismo, exerceriam sobre nós um domínio destrutivo extremamente danoso.

Quando assisto a qualquer um dos jogos olímpicos, logo penso numa favela, das tantas que existem em qualquer grande cidade da América Latina.

O super atleta, desses que conquistam o ouro, de qualquer parte do mundo, recusa o viés confortável da existência.  Seu nome é simplesmente superação. De sua determinação brotará uma façanha semelhante à que precisamos desempenhar no jogo pela sobrevivência em um país como o Brasil.

Estar na fila do SUS, e saber que o problema da saúde pública no Brasil pode levar anos ou décadas para melhorar só um pouquinho, afirma esse tipo de desafio.

Crescer na condição de menino de rua, sonhando com vida boa, mas precisando enfrentar um sistema educacional pobre em oportunidades, idem.

As Olimpíadas, realizadas a cada quatro anos, reafirmam o poder ancestral do super humano, como recurso para nos imaginarmos maiores do que somos.

Em casos de desafios supremos, como a América Latina, e o Brasil, a força dessa imaginação vai ter um espécie de reforço fundamental vindo de todo o medo que sentimos em conjunto, na gana ansiosa de, diariamente, vencermos na vida.

A bem da verdade, nosso coração coletivo é um dínamo que torna nossa força igual à de semideuses, se sentimos sua presença.

Por isso é fundamental crer em um olimpo sagrado brasileiro, de onde emana a inspiração para nossos melhores vitoriosos, em qualquer uma das diversas áreas de atuação que compõem as sociedades contemporâneas, sempre altamente complexas.

No caso do esporte, os reinados que vêm sendo entregues a nossos medalhistas em Tóquio são potência pura para que todos nos inspiremos em suas glórias. Nomes como Rayssa Leal, Rebeca Andrade, Ítalo Ferreira, entre vários outros. 

As coroações, como essas dos atletas olímpicos, ativam o assim chamado passado permanente, como nas celebrações do folclore brasileiro, onde até hoje descendentes de escravos reservam para si pelos menos por alguns dias por ano um lugar de rei na sociedade em que vivem.

O gozo dessa potência popular, muito comum no carnaval, quando a sociedade desmancha sua hierarquia e todos podem ser livres, medeia o maior de todos os heroísmos, que permite a vida boa mas comprometida com o próximo, apesar de se saber da trágica condição humana apoiada na eternidade do sofrimento causado pela sensação moral do convívio humano, ou seja, a noção de que temos que ser solidários com o outro.

Originalmente, as Olimpíadas detêm essa sagacidade, pois sua função na Grécia era justamente afastar o fantasma da guerra e da desagregação social.

Por isso o envolvimento da população mundial hoje em dia com os jogos olímpicos é tão importante. No Brasil de Bolsonaro, mais ainda.

Horrível é viver sem motivações. Acredito em pensar positivo. Acredito em um Brasil da festa e do esporte, com danças e dribles, brincadeiras e malabarismos, euforias e evoluções que nos expressam, por traduzirem nossa capacidade de alegria, tão mais desenvolvida quanto maior a dilaceração causada pela dor de sermos essa região, a mais sofrida do mundo.



Marcus Minuzzi

Jornalista, doutor em Ciências da Comunicação


O corpo sacrificado e o "jeitinho brasileiro"

Muito mal se fala, e sempre se tem falado, do famoso "jeitinho brasileiro". Mas enquanto não se der um jeito de verdade na situação nacional, com relação às agruras do povo, o jeitinho será sempre bem vindo, como sinônimo de valiosa malandragem, num sentido bem brasileiro, porque vinculado às nossas raízes aborígenes (negras e indígenas).

Jeito de verdade seria, pelo menos, reduzir a pobreza. Não precisaria nem acabar com ela, de uma vez por todas. Isso, a China, civilização com cinco mil anos, está tentando há algumas décadas, e ainda não conseguiu. Evidentemente, pode ser que chegue lá. Mas o Brasil... Bem, daí o caso é muito mais complicado.

Tanto que, tendo cinco, seis, sete vezes menos habitantes que a China ou a Índia, mas possuindo um território tão rico e extenso quanto, continuamos campeões em miséria, ignorância e violência.

Ou, pior do que isso: sempre que se tenta diminuir a miséria, uma força bem difícil de ser controlada se manifesta e joga tudo por terra. 

 O atual momento histórico ilustra bem tal problema, escancarando sua fonte geradora, que se encontra para além da simples divisão de classes, entre empresários e trabalhadores. 

O momento, com o avanço do neonazismo, reflete razões mais complexas, porque mais profundas, dizendo respeito à nossa cultura governada pelo mito da mistura de raças, do qual o "jeitinho brasileiro" é uma de suas muitas manifestações.

Os movimentos de corpo do ser humano brasileiro, suas expressões faciais, sua fala, sua voz, tudo isso e muito mais, têm por raiz o nada fácil destino escravo e violentado de nossa nação.

Em outras palavras, nossa cultura emerge do holocausto que se renova, constantemente, a cada movimento que desde sempre experimentamos de adiar a felicidade do povo.

Pois, sempre que se ensaia algo libertador, uma nada mansa revelação emerge do fundo de nossa relação com o inconsciente coletivo humano, forjando o genocídio estrutual em que se encontra a nação, com suas formas terríveis de variados tipos, como golpes de estado, ditaduras e violência policial.

No entanto, é justamente esse destino trágico que nos avia a receita de uma solução solidamente eficiente para nossas carências - a identidade cultural brasileira, contexto dentro do qual surge o "jeitinho", cômputo civilizacional de todas as nossas incompetências estruturais resolvidas com boas doses de conhecimento sagrado das etnias escravizadas.

Essas etnias são especialmente criativas, pois, orientadas pela vinculação com a fertilidade da natureza, possuem com ela uma relação muito mais de pertencimento do que de apropriação. Negros e indígenas são beneficiados culturalmente pelo amor materno que domina a reação violenta perante a violência.

O que sua raiz produz são características encantadas, como a pureza, a paciência, a alegria, a bondade, a criatividade artística, que se impregnam na cultura popular através uma rica e extensa mitologia.

Com a economia digital, pix pra lá, pix pra cá, vendas, bicos e biscates por facebook, instragram e whatsapp, a composição brasileira, ligada à favela, de remédios para os problemas econômicos do dia a dia, certamente vai ser beneficiada, pois o jeitinho tem a ver com uma espécie de princípio de aproveitamento máximo dos recursos disponíveis, o que sem dúvida é favorecido pelo mundo virtual.

Diferente de um sentimento derrotista ou fatalista frente ao destino de nação escravizada pelo capitalismo global, a brasilidade propõe a resistência criativa, ela mesma geradora de simbologias que nos identificam, como a favela amorosa das mães de santo - uma espécie de berço natural de ideologias sobretudo alegres, que fundam práticas culturais como o futebol arte e o carnaval.

Os praticantes da pintura naif, estilo aliado de primeira hora da canção nativa de civilidade nacional brasileira, muito comumente concebem a beleza do povo como jovem, juvenil, fonte de inúmeros recursos para nos entendermos belos. Por isso, pintam a favela, ou as comunidades do recôndito sertanejo, com pinceladas barrocas, plenas de desejo por alianças com a multiplicidade de vida existente nesses lugares.  Porque é neles, quando vistos e representados com olhos artísticos, que habita o gérmen da cultura nacional.

Em termos concretos, de ligação mais clara com a realidade cruel da pobreza, da fome e da violência, essas pinturas querem dizer que nosso caminho obrigatoriamente passa pela imaginação, como forma de suprir a ausência do Estado. São como rosas brotadas do coração do povo, por inspiração mais ou menos direta de sua ancestralidade mítica, fortaleza que enobrece nossa mistura étnica.

O naif, assim, é outra forma de ilustrar o que se chama de "jeitinho brasileiro". Ao fundo, tanto o naif como a mitologia do jeitinho expressam uma aura anterior, que, de outros modos ainda, determina nossa arcabouço artístico-cultural, forjando, como que com a força dos metais de mitos guerreiros, a vitória de nosso povo por sobre todas suas inúmeras dificuldades. 

Que os novos ventos da civilização mundial, soprados por sobre o país desde o início deste século, consigam ser enfrentados por essa determinação corajosa e iluminada.

Outros jeitos daremos, sem dúvidas, a partir das regiões inconscientes que nos regem com humana determinação. Novas luzes surgirão, para que a brasilidade se reconstrua e o mundo inteiro se sinta novamente maravilhado diante do nascimento da paz e da alegria em um contexto tão marcado pela dor da escravidão.


Marcus Minuzzi, jornalista e doutor em Ciências da Comunicação


a sanha do emotivo conceito do "jeitinho brasileiro" é o assunto do meu novo artigo no @diariodaredaçãooficial ::

abaixo, uma pequeno trecho :: no link, o texto completo!!! ::


O materno enamoramento pela utopia

 Os escritos que outrora sediaram a utopia agora sonham a materna revolução. Sinal lindo e absoluto de um novo começo de era. 

Se no século passado tudo andou conforme a convocação da maior de todas as utopias até então, no compasso do marxismo que gerou o mundo socialista, o novo tempo é potencialmente ainda mais novo, pois não quer colocar em causa somente o capitalismo, mas a própria base civilizacional que lhe dá sustentação.

Assim, o grito que se ergue é contra o patriarcado, por conta de um novo pensamento crítico, a voz da utopia matriarcal, que busca colocar em cheque mais uma vez as certezas de nossa cultura.

O domínio do masculino sobre o feminino, do homem sobre a mulher, é polemizado. O medo que o amor gerado pela igualdade entre os gêneros nos conduza a uma vida mais sã afinal será vencido?

Há uma espécie de loucura envolvida em tudo isso, que é a loucura amplamente desejável e sadia da paixão. Uma loucura de amor pelo armistício humano, pelo fim dos genocídios. Uma atitude de amor e coragem pela paz e a liberdade, que nos comanda desde o chamado inconsciente coletivo.

Sendo "loucura", contraria tudo aquilo que parece "normal" ou "certo", para se colocar no caminho de novas modalidades,  claro que "estranhas", porque desconhecidas, de nos relacionarmos mutuamente.

A loucura, no caso, agora, depois de se tentar acabar ou diminuir com as desigualdades na distribuição das riquezas materiais, é procurar, até que se ache, maneiras de fazer com que a energia do feminino assuma o comando da sociedade, em um mundo sabidamente controlado pelo masculino.

Seja, a concretização de tal intento, pelo homem que se coloca na onda da beleza interior que esse nova utopia desperta; seja pelo, digamos, "louco desatino" das manifestações no campo da diversidade sexual e de gênero, com gays, lésbicas, transgêneros, bissexuais, nos revelando novas formas de sentir,de amar, de ter prazer. E assim por diante.

Algo aí, nessa contracorrente da força masculina que governa a humanidade desde há muito, reacende a poesia do sonhar com a mudança social. E com isso acabou gerando, especialmente a partir da última década, uma nova militância, um novo tipo de combatente que, com muito força, alegre, elegância e impertinência, trabalha para consagrar um novo mito de liberdade, que deverá atravessar o século XXI, transformando o mundo, mais uma vez.

Acho, sinceramente, que a procura pelo feminino, para adensar nossas propostas de revolução, acima de tudo encontra um de seus maiores reforços em traços já muito bem definidos da própria brasilidade.

Ou seja, na onda que se principia, para alterar os destinos da humanidade, o Brasil, por mais incrível que pareça nesse momento de nossa história, se encontra altamente envolvido.

Antes de tudo, o feminino é a força que contraria a obsessão, tão masculina, de controle absoluto sobre a realidade.

Nesse sentido, deve se entender o Brasil como mito. De fato, o que se tem sobre nossa forma de ser é a noção de um povo alegre, cordial, generoso. O tão famoso, mas um tanto desgatado, país do carnaval e do futebol.

A raiz dessa ilustração evidentemente fantasiosa é a intuição, manifestada pelo inconsciente, enquanto matriz da cultura, de que somente o tempo artístico, lúdico por excelência, é capaz de produzir nossa harmonia enquanto coletividade.

Somos a pátria, por isso, da grande ilusão artística.

Evidentemente, a contestação desse mito é facilmente realizada quando não se tem consciência da importância da arte e do sonho na vida humana, sobretudo quando se está falando de revolução e utopia.

Por consequência, muitas pedras se atiram contra o mito da brasilidade, seja através do senso comum ou por meio de críticas culturais mais elaboradas.

Nada, no entanto, é capaz de diminuir sua presença. Basta observarmos o modo como ele continua se reproduzindo, em todas os âmbitos de nossa cultura, da publicidade à música contemporânea (que há muito deixou o samba para trás como genêro hegemônico).

O feminino se liga a essa razão artística brasileira de duas maneiras.

Por um lado, através do privilégio ao conhecimento mais artístico-intuitivo do que racional. Para o Brasil dar certo, é preciso primeiro sonhar o Brasil, para, a partir de uma identidade que é renovadora, formular conhecimentos novos em campos outros vinculados à vida prática, como a ciência e a economia.

De outro lado, porque a inventidade cultural da qual somos portadores é fruto, como não poderia deixar de ser, de uma região inconsciente matriarcal que nos guia com uma docilidade absolutamente fértil e libertária.

Não por acaso, o país predominantemente católico que está em nossa origem (o maior do mundo) tem por padroeira uma rainha da águas, Nossa Senhora Aparecida, que predomina em nosso imaginário como grande mãe cultivadora dos aspectos lúdicos de nossa gente, sincretizada, no caso do raciocínio afrodescendente, com a orixá Oxum, figura materna por excelência, regente do amor e da fecundidade feminina.

A graça do Oxum, efetivamente, nos auxilia no parto, para o nascimento de uma sabedoria humana grandemente relacional, onde diferentes formas de conhecimento (europeia, indigena, negra) funcionam como entusiasmo para o enfrentamento das dificuldades da vida em um planeta que corre perigo, transformando a brasilidade em uma espécie de passaporte para o futuro mundial.

Algo que, para ser coerente consigo mesmo, começa com a vida nossa doméstica de cada dia, onde a substância artística obrigatoriamente deve ganhar relevo. A mim, por exemplo, como marido e pai, se torna fundamental o gesto político de redesenhar uma miríade de gestos e atitudes que podem se transformar mediante a elevação de minha alma corrrentemente masculina ao saber embutido nessa mitologia.

Esse é o ápice pois da nova utopia que se formula: de uma consciência matriarcal, com relações estreitas com o país em que vivemos, e que vem sofrendo tantos ataques de ódio atualmente, virá um razão nova, porque muito mais complexa e sensível, que permitirá à humanidade enfrentar com maior destreza a crise planetária que se avizinha.

É como diz o músico e pensador Emicida: quem destravar o Brasil, destrava o mundo.

Não por acaso, acabou surgindo também no Brasil o principal contraponto a tal pretensão, sob a figura maligna de Bolsonaro.

Na beira de um precipício onde se encontram símbolos fundantes e furiosos, a ponto de recriarem em terras brasileiras o próprio terror nazista, nós caminhamos enquanto nação.

Algo que velozmente nos leva em direção ao futuro, compromissados com uma onda pensadora feminina que empodera senzalas e prisioneiras mentoras de avanços decisivos, no sentido da liberdade que a vida humana anseia  por experimentar em sua jornada sobre esse frágil e mítico planeta Terra. 




odete roitman

 fãs da novela, fantasias (carnaval) cultura popular, folclore urbano  bolão, aposta, futebol, jogo o final realmente comemorado foi a ressu...