Nunca foi fácil ser brasileiro ou latino-americano. É muita pobreza concentrada nessa região do planeta, historicamente saqueada pelo imperialismo estrangeiro.
Gosto de pensar, no entanto, que algo melhor - na verdade, muito melhor - nos espera, porque já somos uma espécie de reserva espiritual para a humanidade, um espelho a que outras etnias poderão se mirar, por estarmos construindo, ao longo de todo esse processo que já dura mais de 500 anos, uma civilização imensamente baseada na dor.
Tamanha esperança amorosamente me ocorre na medida em que visito por meio de leituras e devaneios a profundidade de significados envolvidos na realização de mais uma edição dos jogos olímpicos.
Há poucas coisas mais ritualísticas, na vida das nações contemporâneas, do que a Copa do Mundo e, evidentemente, as Olimpíadas. Ritualizar, sob certo sentido, é abrir horizontes. Onde tudo parece ser dificílimo, sem solução aparente, a revelação trazida das zonas inconscientes da alma coletiva, pelo ritual, acolhe, acalma, dá carinho.
É quando ritualizamos que vemos novamente com clareza o que somos: humanos, amorosos, repetidamente andando em busca da paz.
A lembrança desse sentido profundo de humanidade vence qualquer agrura, qualquer guerra, qualquer percalço. Sem isso, situações espinhosas, como atualmente a pandemia e o avanço neofascismo, exerceriam sobre nós um domínio destrutivo extremamente danoso.
Quando assisto a qualquer um dos jogos olímpicos, logo penso numa favela, das tantas que existem em qualquer grande cidade da América Latina.
O super atleta, desses que conquistam o ouro, de qualquer parte do mundo, recusa o viés confortável da existência. Seu nome é simplesmente superação. De sua determinação brotará uma façanha semelhante à que precisamos desempenhar no jogo pela sobrevivência em um país como o Brasil.
Estar na fila do SUS, e saber que o problema da saúde pública no Brasil pode levar anos ou décadas para melhorar só um pouquinho, afirma esse tipo de desafio.
Crescer na condição de menino de rua, sonhando com vida boa, mas precisando enfrentar um sistema educacional pobre em oportunidades, idem.
As Olimpíadas, realizadas a cada quatro anos, reafirmam o poder ancestral do super humano, como recurso para nos imaginarmos maiores do que somos.
Em casos de desafios supremos, como a América Latina, e o Brasil, a força dessa imaginação vai ter um espécie de reforço fundamental vindo de todo o medo que sentimos em conjunto, na gana ansiosa de, diariamente, vencermos na vida.
A bem da verdade, nosso coração coletivo é um dínamo que torna nossa força igual à de semideuses, se sentimos sua presença.
Por isso é fundamental crer em um olimpo sagrado brasileiro, de onde emana a inspiração para nossos melhores vitoriosos, em qualquer uma das diversas áreas de atuação que compõem as sociedades contemporâneas, sempre altamente complexas.
No caso do esporte, os reinados que vêm sendo entregues a nossos medalhistas em Tóquio são potência pura para que todos nos inspiremos em suas glórias. Nomes como Rayssa Leal, Rebeca Andrade, Ítalo Ferreira, entre vários outros.
As coroações, como essas dos atletas olímpicos, ativam o assim chamado passado permanente, como nas celebrações do folclore brasileiro, onde até hoje descendentes de escravos reservam para si pelos menos por alguns dias por ano um lugar de rei na sociedade em que vivem.
O gozo dessa potência popular, muito comum no carnaval, quando a sociedade desmancha sua hierarquia e todos podem ser livres, medeia o maior de todos os heroísmos, que permite a vida boa mas comprometida com o próximo, apesar de se saber da trágica condição humana apoiada na eternidade do sofrimento causado pela sensação moral do convívio humano, ou seja, a noção de que temos que ser solidários com o outro.
Originalmente, as Olimpíadas detêm essa sagacidade, pois sua função na Grécia era justamente afastar o fantasma da guerra e da desagregação social.
Por isso o envolvimento da população mundial hoje em dia com os jogos olímpicos é tão importante. No Brasil de Bolsonaro, mais ainda.
Horrível é viver sem motivações. Acredito em pensar positivo. Acredito em um Brasil da festa e do esporte, com danças e dribles, brincadeiras e malabarismos, euforias e evoluções que nos expressam, por traduzirem nossa capacidade de alegria, tão mais desenvolvida quanto maior a dilaceração causada pela dor de sermos essa região, a mais sofrida do mundo.
Marcus Minuzzi
Jornalista, doutor em Ciências da Comunicação
Nenhum comentário:
Postar um comentário